Pedro, 18 anos, bonito. Ele estava estirado no sofá macio, de jeans e sem camisa, fones de ouvidos plugados no celular. Sua cabeça se movia ritmicamente com a voz de Dave Grohl resmungando em seus ouvidos. A canção terminou. Removeu os fones e jogou o celular no canto do assento. Afastou os cabelos muito negros diante dos olhos de mesmo tom e olhou pela janela para fitar um céu ainda desconhecido. Incerto. Muita coisa era incerta, se você quer saber. Os olhos de Pedro se deslocaram para o uniforme escolar sobre o outro sofá. Ele bufou. Sem escolhas, se levantou, foi até o uniforme e o vestiu. Pegou seu celular, a mochila sob a mesa e passou pela porta do... – que estranho, ele pensou – seu apartamento.
A caminho do elevador, seu celular vibrou. Nova mensagem de texto. Ele a abriu, já sabendo o que encontraria ali. Leu a primeira palavra da mensagem. Seus dentes trincaram. Rapidamente ele configurou: Opções > Apagar todas.
Ele não se sentiu melhor.
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Henrique chorava... de rir. Lágrimas já ameaçavam escorrer pelos seus olhos enquanto várias outras vozes faziam coro com suas risadas. Henrique tinha um riso gostoso. Daqueles que sorrimos juntos só de ouvir.
— E então eu falei — Adriano, um dos melhores amigos de Henrique, e bobo-da-corte da turma continuou, com uma expressão cômica — “Não deixe seu coração cair perto de mim outra vez, ou eu posso não devolve-lo”.
Outra explosão de sorrisos. Quando uma das garotas que estava no grupo começou a rir de um jeito muito estranho — uma seqüência de gritinhos — as risadas só aumentaram. Henrique já segurava a barriga.
— Pa-para, para! Eu vou acabar tendo um troço aqui. — ele disse entre risadas. — Cara, vocês são umas figuras.
Primeiro dia de aula. Embora 9 entre 10 alunos reclamassem do fim das férias, era sempre bom rever os amigos, e nos últimos dias do tempo livre, rolava até certa ansiedade para o retorno. Poucos admitiriam, entretanto.
— Rique, conta a parada da velha da lanchonete — Adriano pediu rindo.
Henrique sorriu só de lembrar. Os outros colegas olharam para ele com expectativa.
— Assim, caras, eu e Adriano fomos numa cidadezinha-
Mas então o sinal quis tocar nesse momento e as queixas de fim de férias nunca foram tão sinceras como quando o professor de matemática entrou na sala mal o sinal acabou de tocar. Ele era terrivelmente pontual.
Rique se sentou em uma das cadeiras no meio da classe e Adriano se sentou ao seu lado. A maioria dos estudantes se sentou num padrão ao redor, deixando apenas cadeiras vagas nas bordas e uma exatamente do lado direito de Rique. Ele olhou para a cadeira vazia, intrigado.
Ela estava atrasada de novo.
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Maria Alice atravessou apressadamente os portões de acesso do Instituto Educacional Riviera, mandando um beijo rápido para o guarda conhecido (galinha e gente boa, como a maioria) que estava fazendo gracinha com seu atraso. Quando entrou por um corredor, seu caminhar apressado se transformou fácil numa corrida.
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Pedro olhou pela qüingentésima vez o papel em suas mãos, como se por alguma mágica houvessem aparecido mais informações. “Horário – Turma 304/mat” dizia o título. O problema era: “Onde diabos era a turma 304?” O pior era que ele nem podia xingar a escola, afinal, a coordenadora se oferecera para lhe mostrar a localização da turma, mas ele teimosamente a dispensara. E ali estava ele, perdido. E, caso encontrasse a maldita turma, chamaria mais atenção do que havia previsto. Além de ser o novato, era o novato que chegava quando todos já estavam sentados assistindo aula. Brilhante.
Quando o garoto deu o passo seguinte, pisou no cadarço desamarrado do seu tênis e quase caiu.
— Caralho! — ele rugiu baixo e furiosamente. Ô dia!
Pedro se abaixou para amarrar o cadarço nada gentilmente.
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Maria Alice cortou por outro corredor parecendo mais uma maratonista do que uma estudante atrasada. Provavelmente foi isso que a impediu de vir um garoto abaixado alguns metros diante dela. Suas pernas bateram com velocidade na lateral do indivíduo e, com um vôo rápido e nada elegante, se estatelou dolorosamente no chão.
— Ai — ela disse com o ar que lhe restou.
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Pedro moveu-se um centímetro apenas com o golpe. Ele olhou com surpresa para o corpo próximo deitado de forma estranha no chão. Ele se levantou e tornou a se agachar próximo ao rosto da garota. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, porém, a garota arquejou e levou as mãos à boca:
— Ai, meu Deus. — ela disse, a voz abafada. — Você está bem? Me desculpa!
Naquele momento, Pedro nem daria muita atenção a isso, mas mais tarde, no fim daquele dia, ele ia ficar intrigado: ele sorriu. Sinceramente. Ele estendeu a mão par a garota e a ajudou a se levantar.
— Você acaba de dar um salto mortal mal sucedido e pergunta se eu estou bem? — Pedro perguntou, uma de suas sobrancelhas levantadas.
— Mortal é uma boa palavra — apontou Alice, em seguida, ela bufou — Aff, sempre quis fazer isso!
— Se estatelar no chão?
—Não, óbvio que não, né? Faço isso toda hora. Digo, levantar uma sobrancelha só.
Ela tentou fazer, mas uma fração de segundo depois, a outra sobrancelha acompanhou a irmã. Alice pareceu frustrada. Os lábios de Pedro se curvaram com sua diversão.
— Maria Alice — disse a garota, estendendo a mão — mas pode chamar só de Alice.
— Pedro Ivo — ele disse, sacudindo levemente a sua mão — me chama de... Pedro.
Ela sorriu. Um sorriso bonito e cheio de dentes. Ela era bastante bonita, Pedro pensou. Os olhos azuis dela contrastavam lindamente com os cabelos castanhos em ondas. Havia alguma coisa de inocência e felicidade nela que o deixava bem. Estranho.
— Agora, se já terminou a minha análise corporal — disse ela ainda sorrindo — tenho que ir. Estou... — e pegou o braço de Pedro para olhar o relógio — Caramba! Vinte minutos atrasada. Então...
— Espera! — ele disse apressadamente, se recusando a corar pelo comentário inicial dela. — Você poderia me dizer onde é a turma 304?
Um brilho se acendeu em seus olhos.
— Você estuda lá?
Ele concordou com a cabeça. Ela sorriu. Ela sorria tanto...
— Então prepare as pernas, que é longe.
Ela começou a andar e ele acompanhou de perto. Cinco passos adiante, porém, ela parou e ele quase esbarrou nela. Ela caminhou até a porta mais próxima e a abriu.
— Chegamos. Nós vamos estudar juntos! — ela disse.
Pedro a olhou confuso. Alice foi entrando e quando notou que ele não a seguia, se virou e acabou rindo da cara que Pedro estava fazendo. Ela pegou a mão do garoto e o arrastou até a porta.
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— Blá blá blá, blu blu blu — para Rique, o professor pareceu falar enquanto escrevia no quadro. O cabelo loiro do garoto lhe caia sobre o rosto — que não disfarçava o tédio — apoiado preguiçosamente na palma de uma das mãos. Seus olhos se direcionavam a um intervalo curto de tempo para a porta. Finalmente a porta se abriu. Ele levantou o rosto em expectativa.
Alice entrou, estava sorrindo, e logo os lábios de Rique se curvaram em um sorriso. Mas então ele viu que a garota estava de mãos dadas com um cara que ele nunca havia visto antes e seu sorriso foi se desfazendo lentamente. Adriano olhou para ele, atento à sua reação.
— Desculpa, professor. Tive uma série de imprevistos. — a garota lançou um olhar divertido para o cara que entrara com ela. Eles já haviam soltado as mãos. O professor resmungou algo. Alice se virou para a turma — Pessoal, esse é o Pedro Ivo, novato. Ataquem!
A turma sorriu. Rique não. “Bela entrada, novato.” Ele pensou. As garotas já começavam a sussurrar animadas. Fácil perceber o porquê. O cara era bonito, claro. Mas, principalmente, havia algo nele que cheirava a mistério. Pedro acenou uma vez, sério, para a turma e então foi se sentar em uma das cadeiras vagas nos limites da classe. Olhou para Alice como se esperasse que ela fosse se sentar com ele. Mas então ela olhou para Rique. Um sorriso charmoso se desenhou em seus lábios e ela caminhou decidida em sua direção. Num segundo, Rique esqueceu qualquer aborrecimento.
— Alice — ele disse quando ela estava de frente pra ele. O jeito que ele falou o nome parecia esconder uma série de coisas não-ditas.
— Rique — ela disse no mesmo tom. Se inclinou e beijou-lhe levemente os lábios. As garotas — e não só elas — suspiraram. O professor pareceu meio perdido enquanto os olhava. Alice sentou e sorriu.
— Pode continuar, Fessor — Rique disse.
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Pedro olhou inexpressivamente para o gesto de carinho entre o casal. É claro que ela era comprometida. Na verdade, ele tinha que admitir que os dois faziam um bonito casal. Ele notou, sem dar muita atenção ao fato, que os dois pareciam estar praticamente no centro exato da sala. Quando o professor voltou a dar sua aula, Pedro olhou para o garoto loiro. Seu cabelo refletia metalicamente a luz que entrava pelas janelas. Ele ficou observando isso por mais tempo do que o necessário.
Rique levantou a cabeça, olhou na direção de Pedro e sorriu. Havia alguma coisa de selvagem sobre aquele gesto, algo que lembrava Pedro dos documentários que ele havia assistido sobre leões, o modo como aqueles grandes gatos levantavam suas cabeças e cheiravam o ar pela presa.
E então suas pupilas se tornaram fendas.
Pedro se levantou da cadeira com velocidade espantosa.
— Você é um “d’Eles”! — ele acusou enquanto de sua calça puxava uma faca cuja lâmina brilhava como se de holofotes estivesse voltados para ela. Então era verdade. A presença que a Guilda havia rastreado realmente pertencia a um d’eles. Ele olhou com nojo para a criatura loira que agora sorria debochado, de cócoras, animalesco, sobre sua carteira.
— Então vocês me encontraram — Rique disse — Já estava cansado de esperar, sabe?
E então ele atacou. Pedro teve uma fração de segundo para se esquivar. As unhas do garoto, que agora eram garras monstruosas, passaram arranhando a lateral do seu corpo. Um contra-ataque rápido do jovem efetuou um profundo corte no ombro da criatura. Então ele se afastou. Pedro começou a murmurar rápido o encanto de aprisionamento.
Mas nas mãos de Rique, uma bola de fogo começara a se formar. Rápido demais. Ele era poderoso.
Faltando cinco palavras para encerrar o encantamento, a bola de fogo fora lançada em sua direção. Veloz demais para permitir fugas. Seria o fim. Ele fechou os olhos e...
— Pedro, você poderia parar, por favor, de fazer esses barulhos estranhos com a boca? Está atrapalhando minha aula.
Pedro ficou paralisado: a boca parou no meio da tentativa de silvado que imitava o som do lançamento da bola de fogo. Ele estava sentado. Óbvio, afinal, nunca havia levantado. O professor o olhava irritado. Os alunos o olhavam com caras estranhas. Henrique o fitava como se ele pudesse ser portador de uma doença infecciosa.
— Ahn... claro, professor. Foi mal.
O celular de Pedro tocou. Era o barulho emitido pelos morfadores dos Power Rangers quando acionados pelo Alpha. Era uma mensagem. O jovem a leu a contragosto.
FELIZ ANIVERSÁRIO, DI-LUA!
Pedro resmungou. Odiava estar fazendo 18 anos, e aquelas mensagens só o lembrava dos amigos antigos que agora estavam na faculdade e que ele havia ficado empacado no ensino médio. O que poderia fazer? Ele estava escrevendo um livro, era mais importante.
O garoto apagou a mensagem. Colocou os seus óculos. Iria prestar atenção no professor. Ia ignorar os olhares daqueles que continuavam a fita-lo.
Oras, qual era o problema de imaginar um pouco? A vida era uma merda mesmo.
No decorrer da aula, seus olhos acabaram caindo em Alice. Ela percebeu e lhe deu um sorriso gentil.
Hunm...
Ela bem que poderia ser uma deusa. Uma deusa enviada ao mundo dos mortais como castigo por...
IMAGEM: Hyperactive Imagination by ~ jclae
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NOTAS: Na minha mente parecia mais legal ;D Tava com vontade de escrever algo, mesmo sem ter nenhuma idéia palpável do quê. Então saiu isso. Com um tempo espero melhorar. No sense.

mano gostei pacas, apesar de algumas palavras como "guilda" não fazerem parte do meu vocabulário, achei bem legal. principalmente a suspense na imaginação do Pedro, rsrsrs (massa)
ResponderExcluirTré bien!
p.s: tens talento!
Eu disse...te dedica a tua vida de escritor que você vai longe!!!
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